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Arroz, Porque Irrigar: Conversa com o Especialista

          É muito comum, quando se fala em lavoura de arroz, vir à mente a imagem de uma plantação alagada ou mesmo as lindas paisagens de arroz cultivado em terraços na Ásia. Mas além da beleza, por que se dar ao trabalho de alagar toda a área da lavoura? Para responder essa pergunta conversamos com um dos mais renomados pesquisadores de arroz irrigado da América Latina. Com centenas de artigos e trabalhos publicados, participações e autoria de diversos livros, além de inúmeras participações em eventos, Enio Marchezan é atualmente professor e pesquisador da Universidade Federal de Santa Maria.

O diferencial do arroz irrigado

 

          O arroz irrigado é aplicado em 99% das áreas de arroz no Rio Grande do Sul, e seu grande diferencial é devido à presença de uma lâmina de água na lavoura. "No geral a principal diferença é a segurança, se tu tens uma lavoura irrigada e, hoje ainda, o conceito é com uma lâmina de água, é a segurança que tu tens de resposta de produtividade" afirma o pesquisador. 

          Quando se tem uma lâmina de água na lavoura, tem-se a garantia de disponibilidade deste recurso durante todo o desenvolvimento das plantas, além de trazer outros benefícios para o cultivo. Segundo Marchezan "Essa presença de lâmina de água provoca transformações químicas, físicas e biológicas nessa área, por exemplo, disponibilizando alguns nutrientes em maior quantidade do que se não tivesse a lâmina de água", além de ajudar na correção do PH, ter efeito termorregulador e facilitar o controle de plantas daninhas.

          A comunhão desses fatores faz com que o cultivo de arroz com irrigação se destaque em termos de produtividade, de acordo com a Agência Embrapa de Informação e Tecnologia (ageitec) a produção média nacional com irrigação controlada foi de cerda de 7,5 toneladas por hectare, enquanto a média para a cultura em terras altas foi de apenas 2 toneladas por hectare.

Sistemas de cultivo

 

          O arroz irrigado por alagamento pode ser cultivado de duas maneiras diferentes: semeado em solo seco, através dos sistemas de cultivo mínimo e convencional, e semeado sobre lâmina de água, aplicando o sistema pré-germinado. Existe ainda o sistema de transplante de mudas que também é feito diretamente sobre a área alagada, porém está restrito à produção de sementes de alta qualidade física e fisiológica, sendo, portanto, muito pouco aplicado, principalmente na região sul do Brasil.

          No Rio Grande do Sul, em torno de 90% do arroz é semeado em solo seco, sendo adotado na maioria destas áreas o cultivo mínimo com semeadura direta e, na menor parte, o sistema convencional. Nesses sistemas de cultivo o preparo do solo é feito de forma antecipada, com menor revolvimento no caso do cultivo mínimo, depois é feita a semeadura e só então se estabelece a lâmina de água. Nos outros 10% do estado gaúcho é utilizado o sistema pré-germinado, em que o solo é previamente inundado e todas as operações são feitas nesta condição, esse cultivo é muito comum no estado de Santa Catarina, sendo empregado em 95% das áreas.

Estabelecimento da lâmina d'água

 

 

          O estabelecimento da lâmina d'água na lavoura se dá em duas condições: em áreas sistematizadas ou aplainadas. No primeiro, os talhões são nivelados, divididos em quadros de seção retangular, fechados por taipas de contorno e, em geral, são de pequeno porte, variando de 1 a 2 hectares. Já no cultivo em terreno aplainado, as áreas apresentam declive e os quadros são delimitados por taipas (marachas), dividindo o talhão em regiões compreendidas entre duas curvas de nível.

 

 Figura 1: Terrenos para cultivo de arroz, na esquerda uma área sistematizada com quadros já alagados, na direita um terreno aplainado dividido em curvas de nível por taipas (Fonte: Planeta Arroz).

 

          Para o correto desenvolvimento das plantas é necessário que a lâmina d'água seja o mais uniforme possível e é desejável que esteja compreendida dentro de uma faixa de 2,5 a 7,5 cm para obter maior rendimento deste recurso, sendo o limite inferior contraindicado pois deixa a cultura mais suscetível a infestações de plantas daninhas e a variações de temperatura. Lâminas d'água superiores também podem ser empregadas, sendo o valor de 10 cm o mais adotado, porém é importante não ultrapassar essa cota, pois aumenta a tendência ao acamamento e as perdas d'água.

 

 Figura 2: Diagrama de como diferentes lâminas d'áagua impactam na lavoura de arroz irrigado segundo documentos oficiais da Embrapa (Fonte: Auster Tecnologia).

Irrigação por aspersão

 

          Outra prática de irrigação do arroz que tem se tornado mais popular nos últimos tempos é o uso de irrigação por aspersão. Segundo Enio "Esse pessoal que está fazendo irrigação por aspersão não tem esse custo de fazer taipa, de desmanchar taipa, e tem mais vantagens aí, porque tu podes sair do arroz, ir para a soja, ir para a pecuária, plantação de pastagem, sem nenhum problema, e inclusive em termos de agronomia é muito bom". O professor ainda afirmou que problemas associados ao cultivo no seco, como infestações de plantas daninhas, são contornados e há muitos produtores tendo bons resultados com essa prática.

 

 Figura 3: Lavoura de arroz irrigado por pivô central (fonte: Valley Irrigation).

Desafios de se plantar arroz

 

          Hoje, o fator mais impeditivo ao cultivo de arroz irrigado é o elevado custo de produção, segundo relatório do IRGA (Instituto Riograndense do Arroz) para a safra 2018/19 utilizando cultivo mínimo (prática mais comum no estado) o custo por hectare de uma lavoura de arroz foi de R$ 8.836,96, ou US$ 2.269,55 na cotação da época. Esse valor, considerando a produtividade média dessa safra que foi de 151,9 sacos por hectare, representa R$ 58,18 por saco, o que acaba sendo superior ao valor de venda.

          Com o panorama atual o custo do arroz acaba superando o valor de mercado deste produto, o que força os produtores a buscarem métodos para reduzir os custos e aumentar a produtividade. "Tentar ser mais eficiente naquilo que se pode, aquela área de menor fertilidade, deixar pra amanhã, aquela outra com problema de plantas daninha, que o custo é muito elevado para controlar, talvez deixar de lado, tenta reduzir e ficar nas áreas melhores" é, Segundo Marchezan, uma boa maneira de se manter competitivo no mercado e melhorar a rentabilidade do negócio. Mas é nesse aspecto que muitos agricultores encontram um empecilho, pois cerca de 70% das áreas cultivadas são arrendadas e, por esse motivo, os produtores são frequentemente forçados a semear em toda a área.

          Outro aspecto que dificulta a atividade é a competição no Mercosul, pois como afirma o pesquisador, "tem a Argentina, tem o Uruguai e tem o Paraguai, que está produzindo com um custo muito mais baixo que nós, e está colocando mais da metade da sua produção no Brasil". Assunto esse que virou manchete como "A nova guerra do Paraguai" e está preocupando muitos agricultores gaúchos, e de fato o Brasil tem custos bem superiores aos demais, são cerca de US$ 2.000,00 contra US$ 1.300,00 da produção Paraguaia. Isso gera duvidas quanto à origem dos custos, pois a maior parte tem variação direta com o dólar, "fala-se em custo Brasil, os tributos né, PIS, COFINS, todos esses custos representam mais de 30% do custo" esclarece o professor.

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